Não se pode estabelecer maniqueísmos na crise entre Ucrânia e Rússia

A polarização de discursos e posições marca de forma determinante os acontecimento do século 21. O mundo globalizado e influenciado pelas redes sociais tem grande contribuição para este fênomeno. Este é um fato dado e com o qual todos lidamos diariamente. Na disputa de narrativas que envolve conflitos geopolíticos não é diferente, muito pelo contrário. E, evidentemente, esta carcterística de nosso tempo marca também o conflito entre Ucrânia e Rússia.

E neste ponto é sempre importante entender as origens da disputa entre os países e como as relações entre ambos marcam também a construção dessas narrativas. As Relações Internacionais não permitem – ou não deveriam permitir – certos maniqueísmos. E, depois que já escrevi textos sobre o projeto russo (e como seu presidente “para sempre” Vladimir Putin entende o lugar de seu país no mundo), é importante também entender o lado ucraniano. Neste caso, os dilemas que a sociedade civil e seus representante políticos enfrentam. Na Ucrânia, a proximidade e o distanciamento em relação a Moscou ocupam lugar central no debate sobre a própria identidade.

E sobre isso é preciso recuar no tempo, até os eventos que resultaram no clímax do novo nacionalismo ucraniano, em especial a chamada Revolução Maidan ocorrida em fevereiro de 2014. Neste evento, a Ucrânia ocupou o centro da mesma disputa em curso neste momento entre Rússia e OTAN – ou em termos mais amplos, a disputa entre a Rússia e o Ocidente.

Depois de um processo eleitoral considerado justo pelos observadores internacionais em 2010, Viktor Yanukovych assumiu a presidência da Ucrânia. No entanto, já no comando do país, seu governo passou a ser acusado de autoritarismo e corrupção disseminada. No jogo político e identitário, ele também mantinha relação próxima à Rússia. Como traço permanente da divisão interna ucraniana, o leste do país era favorável a Moscou, enquanto o centro e o oeste buscavam aproximação à Europa – este pêndulo que ora se aproxima dos europeus, ora dos russos também está presente nos debates internos (agora, inclusive).

No entanto, apesar de gestos importantes e alianças com Putin, Yanukovych manteve seus passos com o propósito de buscar adesão à União Europeia (UE), assim como continuou a negociar com instituições multilaterais importantes do Ocidente, como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em 2013, o então presidente ucraniano precisava se decidir: aceitar as ofertas do Ocidente – que incluíam o empréstimo do FMI e um acordo de associação à UE – ou manter a proximidade com a Rússia. Naquele momento, os russos ofereciam um empréstimo ao mesmo tempo em que ameaçavam as relações comerciais com os ucranianos. A situação de tensão sobre Yanukovych alcançou seu ponto máximo quando ele fez sua escolha, em novembro de 2013, renegando a oferta ocidental. Yanukovych selava então o seu destino político e pessoal.

Para justificar a escolha, ele dizia que não poderia sacrificar o comércio com a Rússia. Também argumentava que a oferta ocidental era inferior ao que precisava para elevar a economia do país ao padrão europeu. O então presidente ucraniano alegava que eram necessários 20 bilhões de euros por ano; a UE havia oferecido 610 milhões de euros.

Os protestos contra a decisão do presidente tomavam forma e ganhavam força na Praça Maidan (Praça da Independência), em Kiev, capital do país. De um lado, manifestações contra a corrupção do governo e contra a “Família”, como era conhecido o grupo de aliados ao presidente, então acusado de enriquecimento desproporcional durante o mandato. No centro do escânadalo e das acusações estava o filho de Viktor Yanukovych, Oleksandr Yanukovych. Antes de o pai assumir a presidência, ele trabalhava como dentista. Em 2013, sua fortuna pessoal era estimada em 133 milhões de dólares.

Enquanto isso, a violência aumentava na Praça Maidan. O auge dos confrontos aconteceu em fevereiro de 2014. No dia 20 daquele mês, mais de cem pessoas foram mortas pela repressão quando a polícia abriu fogo contra as barricadas onde se encontravam os manifestantes. No dia 22, a chamada revolução foi consumada com a deposição e a fuga do presidente Yanukovych. A versão russa da mesma história é que toda esta linha de acontecimentos se tratou de um golpe que contou com o apoio das potências ocidentais.

Mas, como escrevi no começo deste texto, é importante ter olhar mais apurado sobre esses eventos complexos. Se por um lado as razões que levaram aos protestos são mais ou menos claras, é preciso verificar com atenção quem eram os manifestantes que lideravam os confrontos contra a polícia.

No centro dos combates estava o partido Svoboda, de extrema direita. As ações violentas que tomaram as ruas de Kiev na ocasião foram protagonizadas pelo Setor Direito, militantes cujas origens ideológicas estão vinculdas a colaboradores ucranianos do nazismo. Antes de se chamar Svoboda, a legenda tinha o sugestivo nome de Partido Social-Nacional da Ucrânia.

Já no ano seguinte, com a realização de novas eleições e a vitória do presidente Petro Poroshenko, o governo ucraniano chegou mesmo a incorporar uma das milícias neonazistas à Guarda Nacional do país.

Não por acaso, a Ucrânia é hoje uma fonte de inspiração para movimentos e grupos de extrema direita de todo o mundo, inclusive do Brasil.

A ideia deste texto é ampliar o debate e evitar maniqueísmos, como escrevi anteriormente. Não se trata de justificar as ações de Putin. E certamente não se trata de condenar parte dos manifestantes que estiveram na Praça Maidan para protestar contra a corrupção e enriquecimento do ex-presidente Viktor Yanukovych, seus associados e familiares. Mas é importante entender que os acontecimentos de hoje não são atos isolados, mas a consequência da construção histórica de tempos de profunda complexidade.

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