Os muitos elementos que explicam a neutralidade de Israel no conflito entre Rússia e Ucrânia

Por Henry Galsky

O canal público israelense Kan revelou que o primeiro-ministro do país, Naftali Bennett, teria recusado o pedido do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de envio de ajuda militar. Bennett se comprometeu a mandar ajuda humanitária à Ucrânia. Antes disso, Bennett conversou com o presidente russo, Vladimir Putin, a quem ofereceu mediação no conflito. Como escrevi, a ideia de realizar um encontro entre delegações dos dois países em Jerusalém partiu do governo ucraniano. De acordo com a imprensa israelense, Putin ouviu a oferta, mas não teria se mostrado animado com a possibilidade.

Israel faz esforços para conseguir manter a neutralidade no conflito, em boa medida pelos motivos sobre os quais escrevi anteriormente. O governo de Jerusalém chegou mesmo a recusar a solicitação da administração Biden para apoiar uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que condenava a invasão russa. Oitenta e um países assinaram o texto da resolução como copatrocinadores, mesmo sem direito a voto no Conselho.

No entanto, a situação mudou em relação a este ponto. Israel apoiará a resolução da Assembleia-Geral da ONU condenando a Rússia pela invasão à Ucrânia, de acordo com um oficial do governo israelense ouvido pelo jornal Times of Israel.

No final, a partir do prosseguimento do conflito, Israel irá pender para o eixo ocidental liderado pelos EUA. Mas Bennett prefere não ter de chegar a este ponto, não apenas em função do papel que a Rússia hoje exerce no Oriente Médio (com suas forças armadas em atuação na Síria diretamente), mas também por razões domésticas relacionadas à sociedade israelense e à fragilidade política do atual governo.

A coalizão liderada por Naftali Bennett se estabeleceu há pouco tempo, em junho do ano passado. Dos 120 assentos do Knesset, o parlamento do país, o governo é sustentado pela margem mínima de 61 parlamentares. O partido de Bennett, o Yamina, conquistou apenas sete cadeiras. Após quatro eleições em dois anos, uma frágil coalizão de legendas de diversos campos ideológicos foi formada reunindo oito partidos (de esquerda, de direita, de centro e um partido árabe). Bennett diz abertamente que seu governo precisa se concentrar sobre os assuntos práticos sobre os quais é capaz de alcançar consenso. Discussões ideológicas poderiam marcar o fim do governo, levando à convocação de novas eleições.

Por mais que a situação estratégica de Israel em relação às tentativas de estabelecimento iraniano na Síria (e a consequente realização dos ataques sobre o país vizinho) sejam conhecidas pelo governo, Bennett prefere não arriscar desagradar a Moscou. Até porque, é importante dizer, o posicionamento público de Israel sobre o assunto não afeta diretamente o andamento da guerra. No entanto, se o conflito se ampliar e, por exemplo, a OTAN se envolver, Israel vai precisar se decidir. E aqui há informações de que, se for inevitável, o governo israelense irá se manifestar a favor da OTAN e dos norte-americanos – em razão, claro, das relações bilaterais entre Jerusalém e Washington e de sua aliança estratégica.

Ao mesmo tempo, é importante mencionar alguns elementos internos relevantes, inclusive na própria coalizão israelense. Um dos partidos que dão sustentação ao governo é o Yisrael Beytenu, fundado em 1999 por Avigdor Lieberman, atual ministro das Finanças e que já ocupou cargos importantes em diversos governos. O partido foi criado como uma legenda de que seria a voz dos imigrantes dos países da ex-União Soviética. Hoje o partido apresenta bandeiras mais amplas, mas ainda assim tem essa população como eleitorado relevante.

O Yisrael Beytenu tem sete cadeiras no Knesset. De seus sete representantes no parlamento, uma nasceu na Rússia (Elina Bardach Yalov) e três, na Ucrânia: Alex Kushnir, Yulia Malinovsky e Evgeny Sova.

Sete cadeiras é uma quantidade relevante, considerando-se especialmente as informações já mencionadas: uma coalizão de maioria mínima formada por oito partidos distintos e que basicamente se uniram tão somente em torno do interesse comum de impedir que Benjamin Netanyahu permanecesse como primeiro-ministro.

A influência das comunidades russa e ucraniana em Israel é expressa em números grandiosos vinculados à história dos judeus ao longo dos séculos – particularmente, os acontecimentos marcantes do século 20. Até o início da Segunda Guerra Mundial, mais de 1,5 milhão de judeus viviam no que é hoje a Ucrânia. A estimativa é que um milhão tenha morrido no Holocausto. Na União Soviética, viviam cerca de três milhões de judeus até 1939.

Com o colapso da bloco, já sob a liderança de Mikhail Gorbachev, os judeus puderam deixar o país. Muitos vieram para Israel. Hoje, do total da população israelense de cerca de 9,5 milhões de cidadãos, cerca de 1,5 milhão é de origem russa; e em torno de 500 mil têm origem ucraniana.

É improvável que o conflito atual cause distúrbios internos em Israel, mas as manifestações de apoio à Ucrânia tem recebido grande adesão, inclusive com a participação de milhares de pessoas em Tel Aviv. Seja como for, todos esses elementos são levados em consideração pelo governo israelense.

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