Turquia mantém estreitos abertos, mas coordena posição com a Rússia

Por Henry Galsky

Na medida em que a invasão russa à Ucrânia prossegue, os questionamentos aos demais atores regionais também se ampliam. De uma forma ou de outra, os países que ainda permanecem em dúvida ou hesitam em tomar partido precisam enfrentar seus dilemas. O tempo para reflexão e tomada de posição diminui tanto quanto a guerra se estende. O caso da Turquia é emblemático por algumas razões. A primeira delas é a mais óbvia: o presidente do país, Recep Tayyip Erdogan, é uma espécie de Vladimir Putin, mas com assento na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Para além do paralelo evidente, a Turquia tem evitado aderir de forma integral a um dos lados também sob a alegação de que mantém boas relações com ambos. Vale dizer que não foi sempre assim. As relações internacionais são sempre contraditórias e mutantes. Rússia e Turquia chegaram a um nível elevado de tensões recentemente, em novembro de 2015, quando as forças de segurança turcas derrubaram um avião de combate russo que atuava na Síria sob a alegação de que o caça havia invadido seu espaço aéreo. Na ocasião, Putin classificou o episódio como “uma facada nas costas dada pelos cúmplices dos terroristas”. Pois é.

De lá para cá, tudo mudou. E chegamos à guerra na Ucrânia e ao posicionamento turco. Por mais que Erdogan já tenha declardo que a Otan deveria fazer mais pela Ucrânia, a Turquia se absteve durante a votação sobre a suspensão da Rússia do Conselho da Europa, organização cujo objetivo é proteger a democracia, os direitos humanos e o fomento de cooperação jurídica, cultural e de questões sociais. Os turcos tampouco participaram da solicitação para a realização da 1ª reunião entre os membros da Otan sobre a guerra. É possível que Ancara (capital turca) não se junte aos demais países na imposição de sanções mais duras aos russos.

Mas, ao contrário de outros atores que podem se esquivar de decisões mais firmes, a Turquia tem um problema prático e geográfico a resolver. A Convenção de Montreux, de 1936, estabelece a Turquia como controladora dos Estreitos de Bósforo e Dardanelos. Este último conecta o Mar Egeu ao Mar de Mármara. Já o Bósforo liga o Mármara ao Mar Negro. O Mar Negro tem posição estratégica, em especial no confronto atual, uma vez que os 2 principais atores da guerra -Ucrânia e Rússia- têm acesso a ele. Além de Bulgária e Geórgia, membros da Otan.

Portanto, ucranianos e russos pressionam a Turquia para tomar uma atitude mais firme. De acordo com a Convenção de Montreux que mencionei acima, em tempos de guerra a Turquia pode impedir a passagem de navios das partes beligerantes. Mas a convenção também estabelece uma saída que favoreceria aos turcos, caso de fato a intenção do país seja mesmo a de não inteferir no conflito; a passagem é permitida a navios de guerra, caso eles estejam retornando à base de origem. Um chefe meu costumava dar a isso um nome que também passei a usar em muitas situações do dia a dia: saída honrosa. Ou seja, os turcos podem deixar os estreitos abertos ou fechados, dependendo da interpretação que quiserem dar ao momento atual à luz da Convenção.

Pouco tempo antes de concluir este texto, a agência de notícias Reuters publicou a informação de que, a pedido da Turquia, a Rússia cancelou o envio de 4 de seus navios por meio de águas turcas para o Mar Negro, de acordo com o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu. Segundo ele, a decisão foi tomada antes de Ancara fechar o estreito devido à invasão da Ucrânia por Moscou. Com essa “saída honrosa”, os turcos parecem ter conseguido uma forma de permanecer da forma como queriam: mantendo a aliança com ambos.

O que chama a atenção, no entanto, é o fato óbvio de que a manobra ocorreu em coordenação com a Rússia, uma vez que, de acordo com Cavusoglu, Moscou teria cancelado a passagem dos navios. Isso poderia ser entendido também como uma tentativa russa de evitar comprometer a Turquia, talvez de forma a não perder mais um aliado num cenário em que os aliados são cada vez mais raros. E, lembrando, a Turquia é um país-membro da Otan.

Na última terça-feira, o mesmo ministro turco disse que seu país não iria se juntar a seus aliados ocidentais na aplicação de sanções econômicas à Rússia. Como contexto mais amplo sobre as relações entre os países, para além do fornecimento de gás (a Rússia fornece 40% do gás usado na Turquia), os russos estão construindo a 1ª usina de energia nuclear da Turquia, cuja operação deve ser iniciada já no ano que vem.

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