As controvérsias do discurso de Zelensky em Israel

Por Henry Galsky

Na noite de domingo, 20 de março, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, fez um discurso duro para os parlamentares israelenses. A transmissão virtual foi assistida por 119 membros do Knesset, o parlamento de Israel, e por ministros do governo. Os membros do partido Lista Árabe Unificada optaram por boicotar o pronunciamento sob a alegação de que “a Ucrânia é muito pró-Israel”.

O evento foi acompanhado também por centenas de manifestantes pró-Ucrânia por meio de um telão instalado na Praça Habima, no centro de Tel Aviv.

O presidente ucraniano seguiu a estratégia que vem adotando ao se dirigir a governos estrangeiros, questionando as razões pelas quais optaram por não participar de modo mais efetivo na guerra. No caso de Israel, questionou abertamente por que o governo de Naftali Bennett não enviou à Ucrânia o sistema de defesa antimísseis conhecido como Domo de Ferro.

O Domo de Ferro é usado com frequência em Israel e se tornou conhecido em todo o mundo, em função dos confrontos do país com o grupo terrorista Hamas. A taxa de sucesso do sistema chega a cerca de 90% evitando que a maioria dos mísseis e foguetes lançados pelo grupo palestino atinja as cidades israelenses.

Zelensky traçou um paralelo direto entre as lutas travadas entre Ucrânia e Israel argumentando que ambos enfrentam as mesmas ameaças: “a destruição total dos nossos povos, nossos Estados, nossas culturas, e até dos nossos nomes: Ucrânia, Israel”.

No entanto, a principal repercussão do discurso entre comentaristas, analistas, parlamentares e membros da coalizão de governo é a comparação feita por Zelensky entre a invasão a seu país e o Holocausto:

“Novamente em 24 de fevereiro, 102 anos depois dos nazistas, foi dada a ordem para iniciar a invasão russa da Ucrânia, que já matou milhares de pessoas e deixou milhões sem casa. Eles (os ucranianos) se tornaram refugiados em dezenas de países. Os russos usam a terminologia do partido nazista, querem destruir tudo. Os nazistas chamaram isso de ‘a solução final para a questão judaica’. E agora em Moscou eles estão usando essas palavras, ‘a solução final’. Mas agora é dirigido contra nós e a questão ucraniana”.

Este trecho específico do discurso do presidente ucraniano está causando grande polêmica aqui em Israel. O Holocausto é um tema de grande sensibilidade e as comparações com este evento único não são bem recebidas. Mesmo diante de uma guerra e proferido num discurso de uma liderança de um país aliado, como é o caso da Ucrânia, este tipo de paralelo não é bem aceito. Até porque, independentemente da linha política do governo em Israel (seja de esquerda, seja de direita), o rigor histórico em relação ao Holocausto é assunto consensual.

Diversos veículos de comunicação israelenses citaram fontes anônimas entre os ministros do governo que classificaram este trecho do discurso como “comparação ultrajante”.

De acordo com fontes ouvidas pelo Canal 12 da TV de Israel, a política e as determinações diplomáticas do país não irão mudar. Ou seja, Israel deve continuar os esforços de mediação entre Ucrânia e Rússia porque “esses esforços atendem aos interesses do país, independentemente dos resultados”.

O ministro das Relações Exteriores, Yair Lapid, publicou comunicado oficial na sequência do discurso:

“Reitero minha condenação ao ataque à Ucrânia e agradeço ao presidente Zelensky por compartilhar seus sentimentos e a situação do povo ucraniano com membros do Knesset e do governo. Continuaremos a ajudar o povo ucraniano o máximo que pudermos e nunca daremos as costas à situação de pessoas que conhecem os horrores da guerra”.

A tendência é que Israel mantenha a linha de atuação em duas frentes: de ajuda humanitária aos refugiados e de mediação política entre as partes. O país também está concluindo o estabelecimento de um hospital de campanha no oeste da Ucrânia que deve começar a receber pacientes nesta terça-feira, de acordo com o Ministério da Saúde.

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